Auto Biografia
CACILDA
É tão difícil falar de nós mesmos, ainda que seja para resgatar o passado. Mas, vamos lá…
Desde menina sempre procurei caminhos que me fizessem sentir emoções, mesmo sem a consciência desse intento. Queria conhecer novas pessoas, diferentes lugares e outras culturas. Em todo tempo, a questão se intitulava ‘buscar novos horizontes’. Hoje, acredito que a mágica doutrina que me enfeitiçava era a de ‘APRENDER’. Assim, de
sentimento maiúsculo e liberto. Pois bem. A vida seguiu e o aprendizado esportivo começou bem cedo, já aos 9 anos.
Morávamos, irmãos e primos, em um delicioso sítio, e éramos treinados pelo meu irmão mais velho (também o mais velho da turma). Jogávamos voleibol todos os dias! Sem sentirmos, tornamo-nos capazes e maduros. E a vida continuou seguindo… A primeira marcha, patente na memória como ‘a inocência de um início’, foi compor com minhas irmã e primas o time mirim de vôlei do São Paulo Futebol Clube – o tricolor até hoje tão amado por toda a família. Anos depois, já integrávamos a equipe do Esporte Clube Pinheiros e de seleções paulistas. Grandes passos. Muitas vitórias.
Contudo, viajar pelo mundo, vestindo as camisas paulista e brasileira de vôlei, foi quando desenvolvi o forte princípio coletivo de união, de combate e de patriotismo. Em 1969, aos 15 anos e vestindo o uniforme verde e amarelo de número 9, a alegria de vencer o “Sul-americano” de vôlei em Caracas foi uma experiência ímpar. Lembro-me, até hoje, quando sentada no banco das jogadoras reservas,
das aclamações dos espectadores a gritarem “nueve!, nueve!”, pedindo que na quadra eu entrasse para jogar… Talvez por ser eu a mascotinha do time…
Contudo, nos momentos das ovações, não me esqueço das palavras do nosso técnico que, sem atender à plateia, dizia: “não a colocarei em campo, pois lhe subirá à cabeça um sucesso que ainda nem começou”. Quem sabe estivesse ele com a razão…


Também não esqueço do “Sul-americano Inter Clubes”, em 1971 e agora entre as titulares, o campeonato que vencemos pelo Esporte Clube Pinheiros em Lima, no Peru. Vencer as invictas peruanas, representou o ápice! Ganhamos nós – jogadoras – o busto em nossa homenagem, faz muito instalado na entrada social do clube.
Participar da “Universíade” em Torino, na Itália, cantar com orgulho o Hino Nacional, e ver de perto a primeira chama da ‘Tocha de Abertura’, significou para mim o verdadeiro encanto de uma conquista. Afinal, o mundo era bem maior do que eu imaginara…
Disputar o “Mundial” em Varna, Polônia, foi o maior aprendizado de onde os diferentes se tornam iguais em busca do mesmo fim. O mundo, de fato, era bem outro daquele que eu havia imaginado.
Hoje, penso que trazer, a uma praticamente criança, a responsabilidade de buscar o sucesso esportivo de um estado, ou de um país, seja algo indizível. Uma fortuna imensurável no planeta espiritual. Talvez, uma comoção singular e inconsciente de grandiosidade. Principalmente por ter tido ao meu lado, durante todo o trajeto esportivo alguém forte, incentivador, paciente e sempre comigo, tal como meu pai.
Entretanto, a era voleibolística se encerrou tal como o seu início: muito cedo. Aos 20 anos já não mais compunha as quadras de esporte. Motivo? O casamento, evento que nos dá a graça de concebermos os nossos melhores frutos: os filhos. Com eles, prossegui e outras etapas vieram, todas da mesma forma emocionantes.
Envolver-me em cursos como Arquitetura de Interiores, Decoração, Arbitragem, Mediação e Gerenciamento de Campanhas Políticas; tornar-me bacharel em Economia pela Universidade Mackenzie e concluir o curso de Pós-graduação em Marketing na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), tudo isso foi, para a então estudante, como ‘tocar a pinceladas o horizonte’. Continuei em frente…
Apaixonada por jornalismo, mergulhei no Mestrado em Comunicação Social pela Casper Líbero. Fui além. Fascinada pelos casos jurídicos que ouvia de meu marido, resolvi, incentivada por ele, entrar na seara da advocacia. Formei-me na Faculdade Autônoma de Direito, credenciando-me advogada pela OAB. Naquele momento, sentia-me forte e resolvida.
Todavia, o entusiasmo é faminto. Trabalhei na Companhia Docas do Estado de São Paulo – Porto de Santos, por quase 4 anos, como coordenadora do pioneiro e grande “Projeto de Humanização”, que faria das Docas um empreendimento com alma e cara novas. Um porto próximo da comunidade. Um porto além de guindastes e navios! Aplausos aos armadores que patrocinaram o inusitado projeto!
Lembro-me bem de todos os feitos… Na iniciativa “Porto Ser”, ver a alegria das crianças – portadoras de necessidades especiais recebendo aulas de criatividade, exercendo equoterapia, visitando circos, interagindo com o mundo e prontas para o tudo foi como receber, aos meus pés, ‘Terra e Céu’ a um só tempo. No iluminado “Canta Porto”, ter incorporado a magia daquelas noites em alto mar, quando o enorme flutuante – ‘palco’ dos espetáculos de dança e de performances patrocinava a alegria maior nos olhares dos espectadores – realmente instituiu-se em um encontro com o encantamento. E mais. Ter levado às ruas, por quatro anos, a “Prova 8 Milhas Porto de Santos”, conduziu-me ao saudoso e inesquecível passado daquela sonhadora menina de outros tempos…
Mas, em 1991, ter dirigido na Secretaria da Habitação do Estado de São Paulo o “Projeto Vida Melhor” – objeto de minha Dissertação de Mestrado – é algo que permanecerá eternamente em minhas recordações como um trabalho nobre e solidário. Uma ação de fato praticada.
O “Vida Melhor” resumia-se a uma tenda enorme, semelhante àquelas das apresentações circenses, que era instalada em cada conjunto habitacional entregue pela Secretaria de Habitação e a CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano, e lá permanecia durante 30 dias com uma equipe de assistentes sociais, engenheiros, jornalistas, nutricionistas, agentes da saúde e auxiliares. A participação de outras Secretarias de Estado, como as do Meio Ambiente, do Menor e de Saúde foi imperativa. Com efeito, um nobre ofício!
O trabalho consistia em orientar os novos moradores sobre higiene pessoal, saúde e vacinação, formação de associação do Bairro, criação de artistas, boa vizinhança, arborização do espaço, construção de praça, alimentação saudável e lazer.

O mês passava depressa, mas o convívio e as doutrinas fincavam-se eternas naqueles espaços. Ao final, vinha a festa de despedida acompanhada do tão almejado progresso. Quando as cortinas do palco eram fechadas, nós sabíamos o que permaneceria por detrás delas: pessoas capazes de seguir na sua luta por uma vida melhor. Na realidade, uma benção. Um projeto que nunca deveria ter chegado ao fim.
Contudo, sabemos. Enquanto houver vida, a mente não cessa ao trabalho. Ela nos cobra, a cada dia, mais e mais diligências, mais e mais aprendizados. E assim continuei caminhando com fé e esperança de que poderia deixar registrado, no longo caminho da existência, um pequeno legado de grande energia. Tive sorte. Ter comigo um real parceiro e marido, ajudou-me a seguir em frente, com seus gestos e sua labuta. Por certo, ele foi uma âncora em minha vida.
Continuei caminhando… Como jornalista, atuei na Rádio Eldorado com o programa diário “Ruas & Avenidas”, no qual contava aos ouvintes a história das ruas da cidade. Aliás, histórias essas que esclareciam aos ouvintes a razão pelas quais levavam os seus respectivos nomes. As ruas, assim, deixavam de ser simplesmente placas de alumínio com escritos para se transformarem na grande história da cidade. História real. As ruas passaram a ter vida. Vou além. Emocionei-me à época, quando vi editado o meu primeiro livro “Se essa rua fosse minha” – registros dos programetes veiculados na emissora.
Entretanto, como paixão nos faz querer com toda coragem, segui no trabalho. Mantive, por quase oito anos, na Tv Aberta e na Tv Justiça, o programa “Contraponto”, onde entrevistava juízes, desembargadores, ministros e políticos, programas patrocinados pela Associação de Magistrados – APAMAGIS e pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Saudades dessa época em que também era possível trazer, aos telespectadores, o dentro daquelas pessoas, mostrando o lado humano que carregavam consigo.
Mas,
a terra gira e nós giramos com ela. Tempos depois, voltei para a rádio. Agora
na Jovem Pan, e com o mesmo nome do livro “Se essa rua fosse minha”, vieram
as vinhetas com crônicas da cidade de São Paulo. Vinhetas que nada mais eram do
que o seu e o meu cotidianos… Ou seja, o nosso dia a dia nesta Grande Vila. Tempos
bons. Tempos de muitas reflexões. Tempos até divertidos.
Confesso:
todas as etapas foram apaixonantes. Percebo-as como ‘sagrados desafios’ que me conduziram
ao desafio maior: a certeza de que os tantos aprendizados fizeram-me fortalecer
o sentimento de autoconfiança. O sentimento de que tudo, com amor, pode ser
realizado.
Hoje
posso dizer, com humildade e densa ternura, que todas essas projeções desenvolvidas
em minha vida foram manipuladas pela sempre e manifesta ousadia. Assim como o
Desafio Maior, a também Ousadia Maior. A ousadia social. A ousadia de criar. A
ousadia de lutar. A ousadia de realizar. A ousadia de não desistir. Nunca desistir!
Mas, a grande verdade
é que nenhuma conquista realizamos sozinhos. Precisamos de ajuda, apoio e parceiros.
E com muita alegria digo que os tive. Portanto, o mérito é nosso! As missões foram
cumpridas por todos os companheiros. Esquecê-los, seria deslealdade. Seguem,
assim, e para todo o sempre, os meus afetuosos agradecimentos a TODOS que permitiram
e apoiaram fazer dos meus sonhos uma realidade. Desde o início até o fim.
É fato. Como
o produtivo dentro de nós só se encerra quando a chama de energia se apaga, a cada
projeto concluído outro se inicia, produzindo em cada término um novo começo. E
porque os sonhos em mim continuam, quem sabe seguirei editando um outro livro.
Um volume vestido de diferente forma, abraçado por outra essência e iluminado com
dissemelhante mensagem… Por que não? Afinal, é a vida que segue e nós
seguimos com ela, não é mesmo?